Técnicas fundamentais para o sucesso das pastagens e forragens

Os ruminantes desenvolveram durante milhões de anos um sistema digestivo capaz de aproveitar todo o potencial nutritivo da erva. Na bacia mediterrânea existem óptimas condições para a produção de pastagens e forragens de enorme qualidade, ricas em proteína, energia e com elevada digestibilidade.

A rentabilidade das explorações agro-pecuárias depende fortemente dos custos com a alimentação animal, logo, se produzirmos alimentação de qualidade nas nossas próprias explorações, ganhamos independência em relação a factores de produção externos, melhorando os resultados económicos das nossas empresas.

Todavia, para que tenhamos êxito com as nossas culturas pratenses e forrageiras, existem algumas normas técnicas simples, que devemos observar:

1 – Instalação

Época de sementeira – Em Setembro/Outubro, na altura das primeiras chuvas sempre com a temperatura do solo superior a 16 oC.

Preparação do solo – Não são necessárias mobilizações muito profundas, devemos no entanto garantir que a camada superficial fica suficientemente plana e livre de torrões.

Eleição da mistura a semear – deve ter em conta os seguintes factores: solo (pH, textura, e fertilidade), clima (temperatura e pluviometria), finalidade (corte, pastoreio ou ambos), regime hídrico (sequeiro ou regadio), e outros, como o maneio do efectivo pecuário, a frequência de geadas, a exposição solar e profundidade da camada arável.

Sementeira – A sementeira pode ser feita com qualquer tipo de semeador, inclusivamente com um distribuidor centrífugo. Devemos garantir que a semente não fica enterrada a mais que 1 – 1,5cm de profundidade.

Podemos semear pastagens e forragens com sementeira directa desde que consigamos garantir uma sementeira muito superficial e um bom contacto solo-semente. Isto normalmente consegue-se semeando com o solo com pouca humidade (ou mesmo seco).

Rolagem – Idealmente com um rolo de bicos ou anéis, esta operação é fundamental para garantir o bom contacto da semente com o solo. Pode ser utilizado um rolo liso desde que não exista risco de compactar excessivamente o solo e/ou de criar crosta superficial, o que impediria a germinação das sementes. Ter em atenção sobretudo rolagens em solos húmidos com algum teor de argila.

As misturas pratenses e forrageiras, normalmente são constituídas por sementes de pequena dimensão. Isto significa que possuem poucas reservas energéticas para vencer grandes obstáculos. Por este motivo é fundamental garantir um bom contacto solo/semente e uma sementeira de muito pouca profundidade (não mais que 1,5 cm).

2 – Adubação

Adubação de fundo – O macronutriente a observar é o fósforo. Normalmente as misturas ricas em leguminosas fixam azoto mais do que suficiente para garantir o bom desenvolvimento da cultura. É comum utilizar adubos simples só com fósforo, no entanto em sementeiras mais tardias, anos mais frios, ou solos com muito baixa fertilidade poderemos utilizar adubos binários ou ternários com algum azoto que garantam o arranque da cultura.

Para efectuar uma adubação correcta, devemos efectuar análises de solo e levar em conta os seus resultados.

Adubação de cobertura – nas pastagens devemos realizar adubações de manutenção com adubos fosfatados, consoante as necessidades da cultura e a disponibilidade deste nutriente no solo. Recomenda-se que se realizem análises de solo de dois em dois anos.

Nas culturas forrageiras, muitas vezes não é necessário realizar adubações de cobertura. No entanto em anos mais frios, ou, no caso de culturas multicorte poderemos realizar uma pequena adubação azotada, por forma a optimizar a produção destas misturas.

3 – Maneio das pastagens permanentes de sequeiro

  1. Nas pastagens permanentes de sequeiro, no ano da instalação, é obrigatório que se reserve a pastagem a partir do inicio da diferenciação floral e até ao momento em que a pastagem se encontre completamente seca. Desta forma garantimos a formação de um bom reservatório de sementes, que garante a longevidade da pastagem.
  2. No entanto, também é importante que antes desta altura se realize um aproveitamento com uma elevada carga animal. É o designado corte de limpeza. Este pastoreio não selectivo, permite eliminar as infestantes, melhorando a composição da pastagem.
  3. No verão é fundamental que se consuma a pastagem na totalidade, garantindo que o solo fique quase descoberto de resíduos vegetais. Este pastoreio assegura a ressementeira do prado e cria condições óptimas para as novas germinações.
  4. Nos anos seguintes as cargas pecuárias devem ser ajustadas à produção do prado. É mais fácil que uma pastagem se degrade por sub-pastoreio do que por sobre-pastoreio.
  5. A adubação de manutenção pode ser realizada no final do Verão, principio do Outono.

4 – Maneio das pastagens permanentes de regadio.

  1. Na composição das pastagens de regadio entram espécies perenes, pelo que não é necessário reservar a floração na primavera.
  2. Por serem perenes, o desenvolvimento inicial destas plantas é mais lento, assim é normal que no inicio os níveis de infestação sejam muito elevados. Cortes de limpeza com elevadas cargas animais em curtos períodos são a solução para estas infestações. Também se pode realizar um primeiro corte para silagem ou fenossilagem.
  3. Estes prados podem ser pastoreados de forma contínua (com os animais permanentemente  no prado), intermitente (os animais entram e saem do prado), ou rotacional (o prado é dividido em parcelas e os animais pastoreiam uma de cada vez), sendo que normalmente o melhor aproveitamento é conseguido desta ultima forma.

5 – Aproveitamento das forragens

  1. Existem misturas forrageiras com aptidão para pastoreio, para corte e para ambos os usos. Normalmente as misturas para corte (feno, silagem ou fenossilagem), não devem ser pastoreadas pois parte das espécies que as compõem não têm capacidade de rebrote. Podem no entanto permitir um pastoreio ligeiro "no cedo".
  2. A máxima qualidade das forragens é sempre obtida antes da plena floração, pelo que o último corte deve ser efectuado quando se começam a ver as primeiras flores das leguminosas.
  3. A qualidade das forragens depende também fortemente do maneio pós-corte. Encordoamento, reviramento do cordão, enfardação e métodos de conservação influenciam sobremaneira a qualidade da forragem. Este será tema para uma próxima nota técnica.

Em suma, a sementeira de pastagens e forragens assume-se cada vez mais como a melhor forma de melhorar a rentabilidade das explorações agro-pecuárias. Existem no entanto alguns riscos que podem condicionar o êxito destas culturas. Cumprir as normas aqui descritas e procurar o aconselhamento técnico adequado é a melhor forma de evitar acidentes culturais e de garantir que as pastagens e forragens cumprem o seu principal objectivo: fornecer uma alimentação animal rico em energia, proteína, com elevada digestibilidade e a baixo custo.

 

*Artigo publicado na revista Ruminantes, em Outubro de 2011

Comentários (1)

  • José Carlos

    este artigo está muito bem concebido´para todos os senhores agricultores que querem instalar pastagens biodiversas. Os passos a seguir estão bem esquematizados, a linguagem é acessível.

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