PASTAGENS PERMANENTES DE SEQUEIRO, FORRAGENS DE QUALIDADE E O SEU VALOR ECONÓMICO

Os valores agronómicos e ambientais das pastagens e forragens biodiversas, são hoje sobejamente reconhecidos. A protecção e melhoria do solo, o seu papel no ciclo da água, a fixação biológica de azoto e o sequestro de CO2, são apenas algumas das mais valias que este tipo de cultura representa.

No entanto, quantificar o beneficio económico directo e imediato é um exercício difícil e sempre sujeito a algum grau de subjectividade.

A valorização de uma cultura de trigo, por exemplo, é um exercício bastante mais simples: produzimos X toneladas a um preço de mercado de Y e obtemos a receita directa multiplicando X por Y.

Para além de ser muito difícil de aferir com precisão a quantidade de erva que determinado animal consome num prado, essa mesma erva não tem um preço de mercado definido. Mas tem um valor. Qual? Aquele que o produtor não gasta num alimento alternativo.

Em qualquer sistema de produção extensivo, a alimentação dos animais tem por base a erva das pastagens, que é complementada por rações e eventualmente palhas e fenos.

Quanto menos erva produzir a pastagem, e quanto pior for a sua qualidade, maior será o nível de suplementação.

A melhor forma para valorizar economicamente uma pastagem semeada, é através da determinação do número de diárias que suporta, sabendo o custo da diária alternativa.

Para efeito de exercício exemplificativo propomos o seguinte exemplo:

Assumindo que uma Cabeça Normal tem como necessidades diárias 8 Unidades Forrageiras.

E que num sistema tradicional, estas são suprimidas com 2,5 kg/dia de ração de manutenção, alguma palha e pastagem natural, facilmente chegamos a um custo de 0,70€ a 1,00€/animal/dia (diária).

Considerando a produção de um prado, num ano médio: 5000 kg de matéria seca por hectare com uma média de 0,6 unidades forrageiras por kg de matéria seca, temos que cada hectare produz 5000kg x 0,6UFs/kg = 3000 UFs/ha/ano. Isto representa 375 diárias.

Logo, considerando o custo alternativo acima assumido de 0,70 a 1,00€/diária, temos que o hectare de prado vale 262,50 a 375,00 € por hectare e por cada ano.

Se fizermos os mesmos cálculos tendo em conta as necessidades de proteína, chegamos a um valor ainda maior.

Necessidades diárias por Cabeça Normal: 0,850 kg de Proteína Bruta

Produção do prado: (valor médio de 12% de PB) = 600 kg de Proteina bruta/ ano

Isto representa (600/0,850) 706 diárias. Se mais uma vez assumirmos os custos alternativos temos um valor de 494,20€ a 706,00€ por ano.

Os prados bem geridos duram uma vida, mas se, para efeitos de exercício e para simplificar, considerarmos uma duração de 7 anos, temos que o prado vale, pelo valor mais baixo obtido: 262,50€ x 7 = 1 837,50€  a 706,00 x 7 = 4 942 €/ano. Convém reforçar que, 7 anos é um valor arbitrário e que o normal é que os prados durem muitos mais anos.

Para calcular o valor de forragens de qualidade, podemos usar um raciocínio semelhante:

1 – Produção da forragem

2 – Valor do alimento alternativo para obter a mesmo alimento

Valorizando também a sua qualidade, sobretudo o seu teor em proteína:

A proteína alternativa mais comum e imediata é a obtida através das rações, nomeadamente a proveniente da soja.

Esta soja tem um valor de mercado definido. Por esta altura ronda os 0,45 €/kg, com 44% de proteína bruta. Logo o kg de proteína desta origem tem o valor de 1,02€. Assim, se num hectare de forragem de qualidade conseguimos produzir 8 000 kg de matéria seca com 15 % de proteína, significa que produzimos 1 200 kg de proteína bruta. 1200 kg x 1,02€/kg = 1 224,00€/ha.

Não obstante, para produzir forragens de qualidade é necessário observar alguns parâmetros:

1 – Garantir a qualidade genética da mistura forrageira

2 – Garantir uma boa instalação da forragem

3 – Garantir a sua boa nutrição

4 – Cortar no momento certo

6 – Garantir um bom maneio da forragem no pós-corte

7 – Garantir boas condições de conservação.

Esta seria matéria suficiente para outro texto. Brevemente poderemos voltar a este tema.

Para concluir, há que referir que o preço de qualquer produto depende sempre de vários factores, sendo que um destes é comum a todos: o custo energético. O custo energético da produção de uma qualquer ração começa muitas vezes com a sementeira de uma qualquer matéria prima (cereal, proteaginosa ou outros), passa pela sua adubação, tratamento fitossanitário, colheita, limpeza, transporte até ao porto, travessia do atlântico, transporte até à fabrica, moagem, ensaque, distribuição até às explorações e finalmente distribuição aos animais. Este processo tem certamente um custo energético infinitamente superior ao pastoreio directo.

Estes custos energéticos, directa ou indirectamente dependem sempre do custo do petróleo, cujo preço sabemos que tem uma tendência definida, devido ao aumento da sua procura e à sua escassez.

Acresce que, as matérias primas que constituem as rações são hoje tratados como bens financeiros, alvos de constantes expeculações.

Na península Ibérica duma forma geral temos grandes vantagens para a produção de carne em regime “extensivo” de pastoreio permanente. Se intensificarmos melhorando as nossas pastagens e produzindo forragens de qualidade, diminuímos a nossa dependência de factores externos e simultaneamente ganhamos competitividade por via da redução de custos e ainda pela obtenção de produtos de melhor qualidade.

*Artigo publicado na revista Vida Rural em Outubro de 2013

 

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